Infiltrei-me no Tivoli Marina Vilamoura e ninguém se apercebeu
Entre vinhos algarvios, carne premium, cocktails de autor, jacuzzi, boa cama, medronho, jipes na lama e um hotel que mantém a constância de entretenimento e bem estar quando o sol, dá lugar à chuva.
6/9/20266 min read
Vou contar-vos um segredo.
Quando era mais novo, ia de férias com os meus pais e com um casal amigo, cujo filho é da minha idade.
Ficávamos sempre num apartamento em Quarteira.
Eu tinha 13 -14 anos.
E todas as noites havia o mesmo ritual.
Ir com o meu amigo dar uma volta.
Percorriamos uma estrada junto à praia que ligava Quarteira a Vilamoura
Explorávamos a “noite” sem idade para entrar nela.
Éramos barrados à porta de praticamente todos os bares e do Casino.
Faltava-nos tudo o que os seguranças procuravam, idade, postura e pelo na venta.
Muitas dessas noites acabavam da mesma forma.
Entrávamos à socapa pelo Marina Vilamoura.
Não era bem uma socapa escondida, era com o ar natural e confiante de quem tinha os pais ali hospedados.
Lembro-me dos corredores intermináveis.
A alcatifa vermelha.
O cheiro fresco do hotel à noite.
As luzes baixas.
E aquelas máquinas de engraxar sapatos espalhadas pelos corredores, quase como peças de um cenário de filme.
Percorríamos aquilo tudo com a curiosidade de entrar num quarto.
Imaginávamos como seriam por dentro.
As varandas. A vista. A vida de quem ali ficava.
Sem qualquer investida ou sucesso involuntário, desciamos até à gigante piscina exterior que ainda hoje lá habita.
E já que lá estavamos.
Já que era Agosto.
Já que estava calor.
O merecido mergulho.
Infiltrados.
Ousados.
Mas sem más intenções.
Hoje estou aqui.
A convite do Tivoli Marina Vilamoura, a usufruir de toda a oferta com a qual um dia fantasiei.
A vida tem coisas giras.
Esta é uma delas.
Bom!
Retomemos a 2026.
Há hotéis que vivem do Sol, da Piscina e da proximidade à praia.
E depois há o Tivoli Marina Vilamoura que vive 365 dias para nos mostrar as coisas boas da vida.
Porque meter uma piscina gigante em frente ao mar, apontar duas espreguiçadeiras ao sol e esperar que agosto resolva o resto, não exige grande genialidade.
O verdadeiro teste a um hotel acontece quando os dias acordam cinzentos, o vento abana as palmeiras e a praia deixa de ser opção.
Foi precisamente isso que aconteceu no fim de semana de 8 a 10 de Maio.
E talvez por isso tenha sido tão surpreendente.
O convite era simples no papel, duas noites no Tivoli Marina Vilamoura, jantar vínico no Pepper’s Steakhouse com a Quinta do Barranco Longo, passeio de jipe 4x4 pela serra algarvia, almoço tradicional, acesso ao terceiro aniversário do The Argo Cocktail Bar e apresentação da nova carta “Tales of Unexpected”.
Na prática, acabou por ser uma das experiências mais completas que tive nos últimos tempos em hotelaria portuguesa.
Porque aquilo não foi apenas dormir num hotel bonito.
Foi perceber o trabalho gigantesco que existe por trás de um grande hotel.
E perceber também que o Algarve pode ser muito mais interessante quando saímos da narrativa preguiçosa do “sol e praia”.
Chegámos ao Tivoli Marina Vilamoura ao final da tarde.
O hotel tem aquela presença clássica dos sítios que já viram muita coisa acontecer.
Está encostado à marina, praticamente em cima da praia, com aquela mistura curiosa entre luxo descontraído e atmosfera marítima que Vilamoura sabe fazer bem.
Os quartos renovados têm um minimalismo confortável, luminoso e elegante.
Tons claros, varanda aberta sobre a marina e cama absurdamente confortável.
Mas o primeiro grande momento aconteceu no Pepper’s Steakhouse.
A 7ª edição do “Meat Winemakers”, desta vez em parceria com a Quinta do Barranco Longo, produtor algarvio.
Começámos com um atum fresco e “fofo”, acompanhado por wasabi e uma esponja delicadíssima que quase desaparecia na boca. A acompanhar, o Arinto 2024 do Barranco Longo: nariz muito bonito, limão fresco, pera, alguma flor branca, acidez limpa e precisa. Daqueles vinhos que parecem feitos para abrir o apetite e obrigar a mais um gole.
Depois chegou um rosé Oaked 2020 que surpreendeu pela cor.
Cor mais escura, nariz evoluído, sem ponta de doçura nem fruta excessiva.
Um rosé Adulto.
Em prova cega, “não seria aclamado rosé”.
Acompanhava um polvo de textura irrepreensível, tomate extraordinário e pimentão.
Mas o momento alto da noite, para mim, apareceu no carabineiro harmonizado com o Reserva Branco 2023.
Muito provavelmente dos melhores pares de vinho-prato que provei este ano.
Tudo ali vivia da cremosidade. O molho do carabineiro. A profundidade do vinho. A textura untuosa. E depois, no momento certo, aparecia a acidez a limpar tudo e a pedir outra garfada.
Mais tarde veio carne Minhota extraordinária e o Grande Reserva Tinto 2021 - Edição Pepper’s Steakhouse de cor aberta a contradizer os mais de 20 meses em barrica e os 15,5% de álcool.
Não se sentiam.
Só equilíbrio, fruta madura e conforto.
A sobremesa fechou a noite como deve ser, excelente, sem excesso de açúcar, acompanhada por um colheita tardia particularmente feliz.
Dormimos profundamente.
Talvez da comida.
Talvez do vinho.
Talvez das camas.
Talvez do conforto.
Certamente, de tudo.
Na manhã seguinte após pequeno almoço buffet, entrámos num jipe 4x4 e fomos para a serra algarvia.
Chovera muito na noite anterior e as poças de água assinalavam isso.
Ainda bem.
A chuva transformou o passeio numa coisa ainda mais espetacular.
Lama a saltar das rodas grossas, caminhos encharcados, eólicas gigantes a furar o céu cinzento e aquele cheiro húmido da terra algarvia que normalmente ninguém associa ao Algarve.
Parámos para cheirar plantas.
Flores.
Frutos.
Folhas.
Funcho, medronheiro, esteva, alecrim, alfazema.
Laranja algarvia acabada de abrir e criar um novo ambientador ao ar livre.
Falou-se de cortiça ao lado de sobreiros.
Passámos pela destilaria de medronho JP.
Provámos produtos locais.
E parámos para almoçar no restaurante Paraíso do Algarve.
Cogumelos muito bem temperados.
Uma bela cataplana algarvia.
Arroz de polvo magnífico. Cremoso, profundo, cheio de sabor marítimo.
E um bolo de amêndoa e ovo que me recordou imediatamente, porque há combinações que nunca falham.
Regressámos ao Tivoli já ao final da tarde e foi aí que o hotel mostrou realmente ao que vinha.
Porque lá fora estava temporal.
E mesmo assim havia muito para fazer.
Piscina interior grande e agradável. Jacuzzi. Banho turco.
Um ginásio surpreendentemente bem equipado para hotel, muitos halteres, várias máquinas,
Depois há a dimensão operacional da coisa.
O Tivoli Marina Vilamoura tem uma cozinha central com cerca de 1400 metros quadrados que serve os sete restaurantes do grupo naquela zona.
E sente-se uma consistência rara naquilo que chega à mesa.
A carne, seja no restaurante ou até servida junto à piscina, é de topo.
E a produção interna escala até aos gelados Glee feitos internamente.
Hoje em dia fala-se muito de autenticidade. Aqui está ela.
A noite chegou e com ela trouxe o terceiro aniversário do The Argo Cocktail Bar.
O Argo já é, por mérito próprio, um dos bares de cocktails mais interessantes em Portugal.
E percebe-se rapidamente porquê.
A nova carta chama-se “Tales of Unexpected” e vive muito de storytelling, viagens, memória, ingredientes improváveis e técnica refinada.
O primeiro “cocktail” praticamente parecia uma sobremesa algarvia líquida.
Água aromatizada de laranja, canela e referências directas ao Dom Rodrigo.
Por sorte com a explicação do Bar Manager, Nélson de Matos.
Depois vieram cocktails absolutamente improváveis.
Um deles fazia referências mediterrânicas com queijo feta.
Sim, queijo feta.
Ao contrário do Vinho, o mundo da mixologia permite meter literalmente os ingredientes lá dentro e construir memória líquida em tempo real.
E foi curioso perceber como os aromas que tínhamos cheirado de manhã na serra reapareciam ali, à noite, no copo.
Funcho, alecrim, alfazema, laranja.
Como se o dia inteiro tivesse sido desenhado para culminar naquele balcão.
A festa ganhou ainda outra dimensão com a presença da equipa do The Clumsies, de Atenas, presença habitual nos World’s 50 Best Bars e um dos nomes mais respeitados da coquetelaria mundial.
Mas aquilo que mais gostei nem foi o virtuosismo técnico.
Foi a vontade genuína de explicar.
Cada cocktail vinha acompanhado por contexto, detalhe, intenção, produto, memória.
Há paixão verdadeira na forma como falam do produto.
No fim de tudo, fiquei com uma sensação muito simples, o Tivoli Marina Vilamoura consegue oferecer uma experiência global raríssima em Portugal.
Localização junto à praia.
Piscina interior, piscina exterior.
Gastronomia de grande nível.
Produção interna.
Spa com tudo.
Excelente bar de cocktails.
Serviço muito consistente.
Grande capacidade operacional.
Conforto.
E, sobretudo, tem conteúdo.
Não é de valor acessível ao comum mortal.
Nem tentam ser.
Mas também estamos claramente a falar de um dos melhores hotéis do país, em termos de oferta global.
Para quem tiver curiosidade:
Uma noite no Tivoli Marina Vilamoura com pequeno-almoço ronda normalmente os 250€ a 450€, dependendo da época e tipologia do quarto.
Um jantar no Pepper’s Steakhouse para duas pessoas, com vinho, entradas e carne premium, pode rondar os 160€–300€.
Os cocktails do Argo andam normalmente entre os 14€ e os 20€.
Fazendo contas rápidas, o programa completo que tivemos, duas noites, jantar vínico, passeio privado 4x4, almoço tradicional, experiência The Argo e acesso ao aniversário, terá representado facilmente um valor próximo dos 1400€ a 1800€ para duas pessoas.
Valeu?
Nem se pergunta.
Sobretudo porque me fez lembrar uma coisa muito simples:
O Algarve não é só praia.
É produto.
É terra.
É vinho.
É medronho.
É cocktail.
É criatividade.
É gente apaixonada pelo que faz.
E às vezes, curiosamente, é preciso chuva para se perceber isso.
Eu já volto.
Vou só abrir outra.


