Festas do Povo, 11 anos depois, voltam a realizar-se [Evento em Agenda]
Campo Maior volta a florir de 8 a 16 de Agosto. Um convite feito por quem cresceu entre flores de papel, mesas na rua e memórias desta tradição única.
7/11/20262 min read


Há coisas que nunca nos saem de dentro.
O cheiro da casa dos avós.
O som da panela ao lume.
A rua onde crescemos.
E, para quem nasceu em Campo Maior, há uma imagem que fica para sempre. A garagem da "rua" cheia de flores de papel.
Enquanto para muita gente uma garagem serve para guardar o carro, na minha terra servia para guardar uma tradição.
Durante semanas, entravam e saíam vizinhos, tios, primos e amigos.
Sentavam-se à volta da mesa, o papel colorido espalhava-se por todo o lado e as mãos trabalhavam quase sozinhas.
Cortavam, dobravam, enrolavam arame e, pelo meio, conversava-se sobre tudo e sobre nada.
Era impossível perceber onde acabava o trabalho e começava o convívio.
As Festas do Povo sempre foram isto.
Muito antes das ruas enfeitadas.
Muito antes das fotografias.
Muito antes das televisões aparecerem.
As flores são lindas.
Mas confesso que o brilho que mais me saltava à vista foi sempre o das pessoas.
A energia.
A vontade.
A união.
O trabalhar em prol de um bem comum.
Onze anos depois, as Festas do Povo regressam finalmente às ruas de Campo Maior.
De 8 a 16 de agosto, a vila volta a vestir-se de papel, cor e orgulho. E digo "orgulho" porque não conheço outra festa em Portugal que pertença tanto às pessoas da terra como esta.
Aqui não há uma empresa que monta o cenário.
Não há uma produtora que vem decorar as ruas.
São os próprios moradores que fazem tudo.
Durante meses.
Em segredo.
Cada rua escolhe um tema, desenha-o, fabrica milhares de flores de papel e guarda tudo em segredo.
Até chegar a noite da Enramação.
Essa noite é quase impossível de explicar a quem nunca a viveu.
Enquanto muita gente dorme, Campo Maior acorda.
Escadotes, arames, papel, vozes, risos, alguma aflição porque ainda falta acabar aquela esquina... e, quando o sol nasce, a vila já não é a mesma.
Parece que alguém carregou num botão e transformou as ruas num jardim.
E por baixo das lindas flores, a magia acontece 24 por 24 horas.
As mesas na rua.
As cadeiras sempre a contar com lugar para mais 1.
Os copos prontos a encher.
A comida que aparece sem ninguém saber muito bem de onde veio.
As saias de Campo Maior cantadas em coro.
As pandeiretas.
Os acordeões.
E quem lá passa.
Nunca foi visto por ali, mas cinco minutos depois, já está sentado à mesa a comer e a beber connosco.
Não há convite.
Não há reservas.
Não há pulseiras VIP.
Há apenas gosto em tratar bem.
O forasteiro percebe rapidamente que não está apenas a visitar uma festa.
Está a entrar em casa de alguém.
A quem nos visita pela primeira vez, deixo o meu conselho.
Olhem para cima.
Depois olhem para os lados.
E, sobretudo, olhem para as pessoas.
É aí que vão encontrar a arte mais bonita desta vila.
A arte de bem receber.
Se vierem, preparem-se. São muitas ruas para percorrer.
Tragam calçado confortável. Água. Chapéu.
E tempo.
Muito tempo.
Porque Campo Maior não se visita a correr.
Devagar.
Como sempre se viveu.
Talvez por isso estas festas sejam tão especiais.
Não acontecem todos os anos.
Acontecem quando o povo quer.
Como filho da terra, confesso que tenho dificuldade em ser imparcial.
Há muitas festas bonitas em Portugal.
As Festas do Povo em Campo Maior são outra coisa.
Agora, se me permitem, eu já volto. Vou só abrir outra.












