A Geradora, ou como sair de Lisboa sem sair de Lisboa [Artigo de Opinião]
Um antigo edifício industrial transformado num novo destino gastronómico. Pelo meio, a estreia do primeiro Esporão Colheita Rosé
6/16/20263 min read
Há uma coisa curiosa para quem vive em Lisboa.
Passamos metade da vida a sonhar com ela.
E a outra metade presos no trânsito a tentar regressar a casa.
Por isso foi com bom espanto que entrei na Tapada da Ajuda para conhecer a nova casa do Esporão e, passados poucos minutos, deixei de sentir que estava em Lisboa.
Há árvores. Há silêncio. Há pássaros. Há pavões a passearem-se com a confiança de quem paga IMI naquela zona há décadas. E há um edifício industrial gigantesco, escondido no meio de tudo isto.
Chama-se A Geradora.
O nome não foi escolhido numa reunião de marketing com post-its coloridos. O edifício foi originalmente construído para gerar eletricidade para o Palácio da Ajuda, mas nunca chegou a cumprir essa função. Décadas depois, o Esporão recuperou-o através de uma parceria com o Instituto Superior de Agronomia e transformou-o na sua nova casa em Lisboa.
E que casa.
Logo à entrada, o chão de mosaico preto e branco obriga-nos a olhar para baixo. Depois obriga-nos a olhar para cima. O pé-direito parece não acabar. As enormes janelas deixam entrar uma luz que faz qualquer pessoa com máquina fotográfica em punho, parecer profissional.
O Esporão instalou aqui restaurante, espaços para provas, eventos, uma garrafeira na cave e futuras áreas culturais. Há até um túnel que será transformado em galeria de arte.
Outro motivo pelo qual estava ali, foi o lançamento da renovada gama Esporão Colheita.
E, sobretudo, por uma estreia.
O novo Esporão Colheita Rosé 2025.
Feito exclusivamente de Trincadeira, fermentado parcialmente em cubas de betão e sem qualquer contacto com madeira, chega com uma frescura desarmante.
No copo apresenta-se fit, definido para o verão.
No nariz é impossível não sorrir.
Fruta vermelha.
Flores.
E aquela nota gulosa que me fez lembrar algodão doce numa feira popular.
Na boca acontece uma coisa ainda melhor.
Cumpre aquilo que promete.
A fruta que aparece no nariz continua presente. A frescura está lá. Mas sem aquela acidez agressiva que nos faz franzir a cara como quem acabou de morder um limão por engano.
É leve.
É fresco.
É saboroso.
Sendo completamente injusto para os irmãos branco e tinto, porque são vinhos diferentes, digo-o sem hesitar: dos três Colheita, este foi o que mais me conquistou.
Aliás, desconfio que já encontrei um dos meus rosés para este verão.
A nova gama Colheita traz também mudanças interessantes.
Sem madeira.
O resultado são vinhos mais diretos, mais transparentes e mais focados na fruta.
O branco mostrou um perfil mais reservado, com boa frescura e notas tropicais.
O tinto apareceu mais cru, mais vincado, com taninagem presente e um comportamento menos domesticado.
Segui-se a harmonização
Tártaro de vaca maturada, mostarda e batata para acompanhar o Colheita Branco 2024.
Peixe na grelha com molho de broa e agrião para o novo Colheita Rosé 2025.
Bochecha de porco à bordalesa com grão-de-bico para o Colheita Tinto 2024.
E uma tarte de amêndoa com fruta da época para fechar a conversa. Acompanhada por um Fio da Navalha "No Campo" 2021.
Tudo muito bem pensado.
Tudo muito equilibrado.
Um detalhe importante
O Esporão retirou as cápsulas dos Colheita. Eliminou elementos decorativos do rótulo e reduziu materiais desnecessários na embalagem. Uma decisão que permite poupar toneladas de alumínio e reduzir significativamente o impacto ambiental.
Quando saí da Geradora fiquei com a sensação de que o Esporão não abriu apenas um restaurante.
Abriu um refúgio.
Um sítio onde Lisboa desaparece por umas horas.
Onde há vinho, gastronomia, agricultura, cultura e natureza a coexistirem sem fazer muito barulho.
E talvez seja precisamente isso que mais falta faz hoje.
Menos barulho.
Mais tempo.
Mais devagar.
Como diz o próprio Esporão.
Agora, se me permitem, eu já volto. Vou só abrir outra.
